Dos dias





Há dias em que espero, ingenuamente, uma unica razão pra ficar e esperar. Uma esperança infantil pela chance de fazer tudo certo, bonito, iluminado, compartilhado, só sorrisos, carinho, desejo. Da forma que temos certeza que seria.

"...you building the castle with one hand
while tearing down another with the other"



Há dias em que sinto como se estivesse prestes a transbordar. Caminhando lentamente, olhando pros meus pés, pro que vem a meu encontro, desviando, prevendo que a menor pancada - foram muitas - vá dar vazão sem controle ao infinito que tenho aqui dentro. Por isso que deveria ter visto esta despedida vindo. E esse receio de que dois passos após ela, ao olhar pra trás com um sorriso pequeno e o mar no olhos, já te veja longe, muito longe. No horizonte. No teu horizonte compartilhado.

"...but the ghosts that we knew will flicker from you
And we'll live a long life"



E há dias em que lembro de estar presente na minha própria vida. Na vida que havia antes de tudo e que é tão difícil de retomar. Ocupado, focado, resignado e seguindo da mesma forma. O controle sobre algumas das emoções; racionalmente vendo, à distancia, tudo menor. Menos aquele pacotinho cinza de laço azul que não diminui. Eu que devo crescer. Crescer para caber mais. Mais de mim, mais de quem puder.

"...don’t you worry about it, don’t you worry about it
Try and give yourself some rest"



Da retribuição




Tuas mãos descobrindo meus cabelos brancos, teus dedos passeando pelas minhas sobrancelhas, teu rosto na minha barba, tua respiração no meu ouvido. Teu hálito no meu rosto, teu beijo nos meus olhos, teus olhos decorando cada traço meu como eu fiz com os teus. Teu gosto, teu descanso no meu ombro. Teus cachos. Em volta de mim, teus braços.

Tudo isso se perdeu nas escolhas.

Fazer parte da sua vida, em todos aspectos e âmbitos. Conhecer ainda mais de onde você vem, quem está a tua volta, teu quarto, tuas coisas, tua casa. Ser inserido em seu mundo tanto quanto te inseri e fiz confortável no meu.

Tudo isso se perdeu nas escolhas.

Ser cuidado.

Tudo isso se perdeu nas escolhas.


Da atenção




Sei que não vai me substituir. Sei que mesmo soterrado pelos desencontros e culpa eu estou ai. Que me ama e que continuo impregnado em você de alguma forma bonita.

Mas é sobre a tua atenção. 

Depois de tudo, suponho que hoje já não sou fonte de conforto, sorrisos e interesse como fui antes para você. Por isso, como quem se afasta e olha pros lados para se proteger, menos atenção você presta. Resignado, sentindo que já te perdi de tantas formas, suportando mais essa. As horas e horas ao telefone, o sofá, a troca, as respostas imediatas às mensagens... O que havia aqui vai ser encontrado no trabalho, nele, nela, neles, nos novos, nos antigos, na perspectiva do futuro.

E isso é bom! De coração, isso é. Estar algumas páginas a frente e à volta de tantos outros apoios é não sentir o vazio como sinto e é menos importância a ser dada quando finalmente eu já não estiver aqui. Te ver se recompondo depois de tudo é um alívio.

Mas é sobre a minha atenção.

Que não sei pra onde apontar.

Do sol




Sobre esse teu dom de conquistar as pessoas sem esforço. Um sol que incide os raios/cílios dessa personalidade na vida de tantos, fazendo com que todos adorem estar em tua órbita. Iluminando, aquecendo, trazendo alegria, sempre com espaço, humor, simpatia e que me inspira a estar à altura. Ser a melhor versão de mim, por mim e pra você. Retribuir minimamente o bem que você me faz. Por que a exuberância aos meus olhos e lentes é você.

Eu não escapei da tua gravidade e hoje, junto com meu pacote cinza de laço azul, sou melhor por isso.

22-21



22: Você descobre meu próximo lar, eu descubro que 21 foi ontem e toda inquietude fez sentido. Sabia, antes de saber, que algo viria pra terminar de me demolir.

Remember me as a time of day




Na primeira coisa ao acordar. No fôlego antes dos próximos 500 metros. No banho, na água que desce por um corpo retesado, travado, que se segura e se estica pra não deixar transbordar frustração. 

Na ida, no caminho, no trânsito, no café. No olhar opaco e sem foco pra tela do computador, pra janela, pro rio. Entre uma ligação e outra, uma página e outra, uma prateleira e outra. 

No tempo que perco, ausente/presente nas aulas. Na volta, no caminho, no trânsito, nos fones estourando os ouvidos como se o som pudesse ocupar teu lugar, te empurrar pra fora da parte consciente da mente. 

No fim do dia, me preparando pro próximo. No ultimo momento antes de adormecer torcendo pra que amanhã, ao acordar, só pra variar, meu primeiro pensamento não seja sobre você(s)


01 laço



Então me perguntei: "Qual a melhor coisa que tenho, que sei fazer e posso compartilhar?" Logo veio a resposta e pronto, já fui embrulhando tudinho rapidinho - com pressa e sem responsabilidade, admito - em papel de presente cinza e laço azul, os sorrisos engolindo as orelhas. Passei a andar com esse pacote sob o braço o tempo todo. Na praia, no sofá, nos carros, nas filas de fast food...Você já andou por aí com um presente lindo embaixo do braço o dia inteiro? Por meses? Ano? Eu nunca.

O problema é que antes de embrulhar o pacotinho todo faceiro esqueci de colocar a etiqueta pra devolução e troca. Esqueci ou ignorei. Daí quando entreguei, não serviu... Ficou pequeno e era presente repetido. Já que não deu, peguei de volta e guardei bem guardado. 

aqui.

Já, já deve começar a bater poeira, o azul do laço desbotar, o cinza do papel embranquecer até ser visto embaixo de alguns livros, filmes, pessoas, séries, coisas... É, talvez seja o melhor a acontecer. Mas ele vai continuar ali com remetente e destinatário no cartão. E eu disposto a te entregar novamente; quando der, couber ou você quiser. Não vou jogá-lo fora. Por que? Porque é óbvio: é o único pacote desse tipo que tenho, que me tira do eixo, o único que fiz questão de embrulhar bonitinho e colocar um nó de fita em cima...Não, não, 'nó' não. Laço. Nó aperta, laço enfeita, já dizia aquele rapaz.




Pois é




Um dia eu enchi o peito, olhei pra dentro e vi que não me importaria em ser costurado na tua vida. Escorregado entre as brechas de um círculo de amigos, peneirado no crivo familiar, empurrado entre algumas rachaduras para cair em um vazio recém criado e ali inflar; segurar o ar como quem quer parecer ser maior até o ser. Ou explodir.

Explodi.

Da madrugada sincera alcoólica



Eu, pessoa física, acredito que o homem se revela naqueles 42 segundos entre o gole de cerveja que embriaga de vez e o gole seguinte que vem para lavar o que quer que tenha acontecido nos segundos recém passados.

Seja a confissão constrangedora na mesa do bar de que pegou a mulher que não devia. Seja o beijo roubado. Seja a imitação ridícula do Silvio Santos. Seja o whattsapp se declarando para aquela moça que te pediu em namoro e você disse 'Não'. São nesses momentos que o que foi feito, desejado, consumado, cagado ou pensado sóbrio vem à toa - clichê.

Aliás, existe algo mais clichê do que ligar para quem não devia com um assunto meia boca, querendo uma aproximação instantânea, um pedido de desculpas/amor subliminar escondido nas piadas forçadas e referências sobre coisas de quando vocês ainda estavam juntos? Não, não existe. Porém, para mim, é aqui que a sinceridade do bêbado salva o dono do coração medroso. Afinal, a verdade usa garrafas de Stella Artois como muletas. 

Isso se você atender ou responder as mensagens nesses 42 segundos...por que senão, meu amigo, o orgulho ferido do macho vai passar pro 2º nome na Lista do Apego Emocional que é basicamente o 1º nome na Lista das Trepadas 50% Certas (como assim ela me ignora?! Eu me declaro, sou totalmente sincero e é isso que ganho?!). Amargura de uma rejeição momentânea...é assim que rola. 

Se a revolta funciona? Nem sempre. Arrisco dizer que nunca funciona por que no outro dia, admita, o coração anestesiado pelo rum e sufocado pelos cigarros recupera a lucidez (ou a falta), a merda continua dita e a coisa certa continua não feita. Daí só resta esperar os colhões crescerem e tentar de novo sóbrio ou reconhecer que deve seguir.

Seven Nation Army



Olha só que cara estranho. Bicho, que porra é essa?! Tá naquela crise dos 20 e poucos? Sei como é isso...você acha que tá ficando velho aí começa a ver que as tuas antigas certezas nem são tão firmes quanto costumavam ser, não é isso? Que fica mais difícil de se reconhecer, que putarias em grupo nem são tão divertidas assim e nem toda cachaça do mundo consegue te deixar bêbado! E nem tem tantos bons amigos assim, né? Você não assiste mais tantos filmes quanto costumava e passa a andar com os fones de ouvido sempre que possível. Gente malandra não é mais engraçada e as interessantes são raras. É isso mesmo...eu to te entendendo. Tu fica nessa imagem de rapaz de bem, mas por dentro tá pedindo aprovação e não sabe pra onde ir se alguém não aponta a direção. Passei por algo do tipo já... Como é? Te definiram como uma mistura de Mr. Brightside com Mr. Darcy? O primeiro até entendo, mas cadê o orgulho do segundo que tu costumava ter? Evaporou à alguns meses? Sei não, hein...isso é uma furada, cara. Deixa de coisa e faz o favor de arrumar um Norte pra teu barco e para de colocar letra de música nos teus textos.