Da retribuição




Tuas mãos descobrindo meus cabelos brancos, teus dedos passeando pelas minhas sobrancelhas, teu rosto na minha barba, tua respiração no meu ouvido. Teu hálito no meu rosto, teu beijo nos meus olhos, teus olhos decorando cada traço meu como eu fiz com os teus. Teu gosto, teu descanso no meu ombro. Teus cachos. Em volta de mim, teus braços.

Tudo isso se perdeu nas escolhas.

Fazer parte da sua vida, em todos aspectos e âmbitos. Conhecer ainda mais de onde você vem, quem está a tua volta, teu quarto, tuas coisas, tua casa. Ser inserido em seu mundo tanto quanto te inseri e fiz confortável no meu.

Tudo isso se perdeu nas escolhas.

Ser cuidado.

Tudo isso se perdeu nas escolhas.


Da atenção




Sei que não vai me substituir. Sei que mesmo soterrado pelos desencontros e culpa eu estou ai. Que me ama e que continuo impregnado em você de alguma forma bonita.

Mas é sobre a tua atenção. 

Depois de tudo, suponho que hoje já não sou fonte de conforto, sorrisos e interesse como fui antes para você. Por isso, como quem se afasta e olha pros lados para se proteger, menos atenção você presta. Resignado, sentindo que já te perdi de tantas formas, suportando mais essa. As horas e horas ao telefone, o sofá, a troca, as respostas imediatas às mensagens... O que havia aqui vai ser encontrado no trabalho, nele, nela, neles, nos novos, nos antigos, na perspectiva do futuro.

E isso é bom! De coração, isso é. Estar algumas páginas a frente e à volta de tantos outros apoios é não sentir o vazio como sinto e é menos importância a ser dada quando finalmente eu já não estiver aqui. Te ver se recompondo depois de tudo é um alívio.

Mas é sobre a minha atenção.

Que não sei pra onde apontar.

Do sol




Sobre esse teu dom de conquistar as pessoas sem esforço. Um sol que incide os raios/cílios dessa personalidade na vida de tantos, fazendo com que todos adorem estar em tua órbita. Iluminando, aquecendo, trazendo alegria, sempre com espaço, humor, simpatia e que me inspira a estar à altura. Ser a melhor versão de mim, por mim e pra você. Retribuir minimamente o bem que você me faz. Por que a exuberância aos meus olhos e lentes é você.

Eu não escapei da tua gravidade e hoje, junto com meu pacote cinza de laço azul, sou melhor por isso.

22-21



22: Você descobre meu próximo lar, eu descubro que 21 foi ontem e toda inquietude fez sentido. Sabia, antes de saber, que algo viria pra terminar de me demolir.

Remember me as a time of day




Na primeira coisa ao acordar. No fôlego antes dos próximos 500 metros. No banho, na água que desce por um corpo retesado, travado, que se segura e se estica pra não deixar transbordar frustração. 

Na ida, no caminho, no trânsito, no café. No olhar opaco e sem foco pra tela do computador, pra janela, pro rio. Entre uma ligação e outra, uma página e outra, uma prateleira e outra. 

No tempo que perco, ausente/presente nas aulas. Na volta, no caminho, no trânsito, nos fones estourando os ouvidos como se o som pudesse ocupar teu lugar, te empurrar pra fora da parte consciente da mente. 

No fim do dia, me preparando pro próximo. No ultimo momento antes de adormecer torcendo pra que amanhã, ao acordar, só pra variar, meu primeiro pensamento não seja sobre você(s)


01 laço



Então me perguntei: "Qual a melhor coisa que tenho, que sei fazer e posso compartilhar?" Logo veio a resposta e pronto, já fui embrulhando tudinho rapidinho - com pressa e sem responsabilidade, admito - em papel de presente cinza e laço azul, os sorrisos engolindo as orelhas. Passei a andar com esse pacote sob o braço o tempo todo. Na praia, no sofá, nos carros, nas filas de fast food...Você já andou por aí com um presente lindo embaixo do braço o dia inteiro? Por meses? Ano? Eu nunca.

O problema é que antes de embrulhar o pacotinho todo faceiro esqueci de colocar a etiqueta pra devolução e troca. Esqueci ou ignorei. Daí quando entreguei, não serviu... Ficou pequeno e era presente repetido. Já que não deu, peguei de volta e guardei bem guardado. 

aqui.

Já, já deve começar a bater poeira, o azul do laço desbotar, o cinza do papel embranquecer até ser visto embaixo de alguns livros, filmes, pessoas, séries, coisas... É, talvez seja o melhor a acontecer. Mas ele vai continuar ali com remetente e destinatário no cartão. E eu disposto a te entregar novamente; quando der, couber ou você quiser. Não vou jogá-lo fora. Por que? Porque é óbvio: é o único pacote desse tipo que tenho, que me tira do eixo, o único que fiz questão de embrulhar bonitinho e colocar um nó de fita em cima...Não, não, 'nó' não. Laço. Nó aperta, laço enfeita, já dizia aquele rapaz.




Pois é




Um dia eu enchi o peito, olhei pra dentro e vi que não me importaria em ser costurado na tua vida. Escorregado entre as brechas de um círculo de amigos, peneirado no crivo familiar, empurrado entre algumas rachaduras para cair em um vazio recém criado e ali inflar; segurar o ar como quem quer parecer ser maior até o ser. Ou explodir.

Explodi.

Da madrugada sincera alcoólica



Eu, pessoa física, acredito que o homem se revela naqueles 42 segundos entre o gole de cerveja que embriaga de vez e o gole seguinte que vem para lavar o que quer que tenha acontecido nos segundos recém passados.

Seja a confissão constrangedora na mesa do bar de que pegou a mulher que não devia. Seja o beijo roubado. Seja a imitação ridícula do Silvio Santos. Seja o whattsapp se declarando para aquela moça que te pediu em namoro e você disse 'Não'. São nesses momentos que o que foi feito, desejado, consumado, cagado ou pensado sóbrio vem à toa - clichê.

Aliás, existe algo mais clichê do que ligar para quem não devia com um assunto meia boca, querendo uma aproximação instantânea, um pedido de desculpas/amor subliminar escondido nas piadas forçadas e referências sobre coisas de quando vocês ainda estavam juntos? Não, não existe. Porém, para mim, é aqui que a sinceridade do bêbado salva o dono do coração medroso. Afinal, a verdade usa garrafas de Stella Artois como muletas. 

Isso se você atender ou responder as mensagens nesses 42 segundos...por que senão, meu amigo, o orgulho ferido do macho vai passar pro 2º nome na Lista do Apego Emocional que é basicamente o 1º nome na Lista das Trepadas 50% Certas (como assim ela me ignora?! Eu me declaro, sou totalmente sincero e é isso que ganho?!). Amargura de uma rejeição momentânea...é assim que rola. 

Se a revolta funciona? Nem sempre. Arrisco dizer que nunca funciona por que no outro dia, admita, o coração anestesiado pelo rum e sufocado pelos cigarros recupera a lucidez (ou a falta), a merda continua dita e a coisa certa continua não feita. Daí só resta esperar os colhões crescerem e tentar de novo sóbrio ou reconhecer que deve seguir.

Seven Nation Army



Olha só que cara estranho. Bicho, que porra é essa?! Tá naquela crise dos 20 e poucos? Sei como é isso...você acha que tá ficando velho aí começa a ver que as tuas antigas certezas nem são tão firmes quanto costumavam ser, não é isso? Que fica mais difícil de se reconhecer, que putarias em grupo nem são tão divertidas assim e nem toda cachaça do mundo consegue te deixar bêbado! E nem tem tantos bons amigos assim, né? Você não assiste mais tantos filmes quanto costumava e passa a andar com os fones de ouvido sempre que possível. Gente malandra não é mais engraçada e as interessantes são raras. É isso mesmo...eu to te entendendo. Tu fica nessa imagem de rapaz de bem, mas por dentro tá pedindo aprovação e não sabe pra onde ir se alguém não aponta a direção. Passei por algo do tipo já... Como é? Te definiram como uma mistura de Mr. Brightside com Mr. Darcy? O primeiro até entendo, mas cadê o orgulho do segundo que tu costumava ter? Evaporou à alguns meses? Sei não, hein...isso é uma furada, cara. Deixa de coisa e faz o favor de arrumar um Norte pra teu barco e para de colocar letra de música nos teus textos.


Entre prateleiras






Aprendi com Ela praticamente tudo o que sei sobre mulheres aos 16 anos. E vou logo dizendo que não foi muita coisa. Aprendi que, principalmente no campo amoroso, não devo fazer com elas o que não desejo que me façam. Aprendi que toda mulher merece ser mordida, chupada, lambida sem pudores, receios ou freios. Dessa forma, dizia Ela, "nunca vão te esquecer". Aprendi em Ela que nem toda mulher precisa ou quer dormir de conchinha. As vezes só querem sexo e eu tenho que deixar de lado esse machismo que tanto luto pra esconder quando encontrar uma dessas moças. Nunca consegui fazer isso...me pego impressionado quando não sou eu que vou embora num táxi às 3:00am. Com Ela, entre uma aula de Física e outra de Literatura, todas Terças e Sextas, me acostumei a trepar no banheiro feminino da escola. Um costume que até hoje, tempos de Universidade, não abandono. Foi com Ela também que aprendi da pior forma uma das verdades universais: Se você tiver uma 'queda' por alguem que dure mais de 3 meses, desespere-se: você está apaixonado. Se você contrai o maxilar envergonhado de si mesmo toda vez que se pega pensando em tal pessoa, corra.



Aprendi com Ela que quando uma Mulher diz Sim, ela quer dizer Sim. Quando diz Não, ela quer dizer Não. Ela me contou que existem fêmeas que trocam essa relação básica. "Como eu disse, apenas fêmeas". Eu que sempre quis ser um rockstar - e ainda quero - não entendia que eu não precisava ser o cara mais bonito, talentoso, saber dançar, rico ou charmoso para conseguir uma mulher. Ela me avisou que bastava ser engraçado nas horas certas, abrir potes de azeitonas, ser sincero e claro, chupá-las. Ela me iludia dizendo que os livros e filmes nos quais eu me entrincheirava ainda iam me ajudar nesses campos e assuntos. Podia estar errada... Depois dEla aprendi que juras de amor embriagadas, pactos de sangue ou contratos assinados não impedem que relações que pareciam ser eternas se desfaçam com aquilo que acontece sem a gente perceber: a vida.



Relembro tudo isso por que ontem encontrei Ela na fila do Supermercado. Olhei pro lado e lá estava, toda sorrisos, me encarando, aliança de noivado no dedo, graduada, channel e mais linda do que nunca. Depois de 3 anos e com a surpresa do encontro, passamos horas entre prateleiras de miojos e Doritos conversando, lembrando. Ela desliga o telefone pra não incomodarem, eu esqueço o que vim comprar. Ela chora um choro contido, daqueles em que toda fibra do seu corpo se empenha em esconder quando eu digo, com toda a sinceridade, que ela foi a que mais me marcou e que até hoje, independente de todas que tenham passado por mim ela sempre vai ter um lugar iluminado no meu coração. "E pode estar parecendo, mas apesar disso eu não espero que tu deixe sua vida atual pra tentar algo novamente com o namorado da adolescência". Ela concordou e disse que nunca faria isso mesmo. Eu, egoísta que sou, perguntei por que ela estava com esse cara, afinal no nosso tempo Ela dizia não acreditar na instituição chamada Casamento: "Por que com ele eu sinto o que nunca senti contigo ou com qualquer outro que conheci depois. Com ele sinto algo que me parece uma espécie de Segurança. Me sinto segura, dona de uma situação confortável. Admito que nunca houve aquela paixão toda de adolescente, aquele tesão que eu tinha contigo. Mesmo assim é o melhor pra mim. É uma escolha minha. Sabe, não se ofende, mas pelo que te conheço, pelo que vejo agora, você não mudou muito. Te olho e vejo o impulso, a intensidade, a completude e nenhuma preocupação. Tu ainda encanta e intriga! Sei que aquelas que ficam contigo podem reclamar de tudo, menos que foi um tempo perdido. Mas, cara, eu vejo tudo isso menos a Segurança. Segurança que me diz que tu não vai embora no mês que vem."


Ela ficaria feliz se soubesse que errou dessa vez...que sim, há mudanças.



"Era uma boa mulher. Eu tinha de me endireitar. Um homem 
só precisa de um monte de mulher quando nenhuma delas 
presta. Um homem pode acabar perdendo a identidade de 
tanto galinhar." 
(Charles Bukowski)